Ferreira Pena entra na reta final para virar Rua Gastronômica
Obra começa na segunda-feira (24) e vai transformar trecho histórico do Centro em espaço voltado à gastronomia, convivência e circulação de pedestres
Uma das ruas mais movimentadas da vida noturna do Centro de Manaus está prestes a ganhar uma nova configuração. A partir de segunda-feira (24), a Ferreira Pena começa a passar pelas obras que vão transformá-la na primeira Rua Gastronômica da capital, com prioridade para pedestres, áreas de convivência, novo mobiliário urbano e preservação da arborização existente.
Antes do início da intervenção, representantes da Prefeitura de Manaus, empresários e moradores se reuniram para alinhar os impactos da obra sobre trânsito, funcionamento dos estabelecimentos e circulação no entorno.
A transformação faz parte do programa Nosso Centro e aposta em uma característica que a Ferreira Pena já possui: concentração de bares, restaurantes, movimento noturno e presença de público. A proposta agora é reorganizar esse uso e criar condições para que a rua seja ocupada também durante o dia.
Nova configuração
A intervenção alcançará aproximadamente 190 metros da Ferreira Pena, em uma área de mais de 3,8 mil metros quadrados.
O trecho será convertido em plataforma única, modelo em que pista e calçada passam a compartilhar praticamente o mesmo nível. A mudança amplia o espaço de circulação de pedestres e tende a reduzir a velocidade dos veículos.
O asfalto dará lugar a blocos de concreto intertravados, enquanto os passeios serão revestidos com pedra quartzito natural.

O projeto prevê ainda bancos, floreiras, lixeiras, balizadores, nova iluminação pública, luminárias direcionadas aos passeios e iluminação decorativa aérea em LED.
Mais do que uma reforma física, a intenção é mudar a relação entre a rua e quem passa por ela.
A gerente da Divisão de Planejamento Urbano do Implurb, Rejane Gaston, resume essa perspectiva como uma tentativa de devolver protagonismo às pessoas.
“O real sentido é a permeabilidade das pessoas. Porque aqui você vai poder transitar, estar na segurança, e a economia vai estar girando. Isso aqui vai ganhar vida, não só de noite”, afirmou.

Trânsito alterado
A execução da obra exigirá mudanças temporárias na circulação de veículos.
O acesso pela rua 10 de Julho em direção à Eduardo Ribeiro será alterado, e a conversão para a Ferreira Pena ficará interrompida durante os serviços. O Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) ficará responsável pela orientação dos motoristas e definição dos desvios.
O impacto também chegará aos estabelecimentos instalados no trecho, mas a orientação é para que bares e restaurantes continuem funcionando durante a maior parte da obra.
Segundo o vice-presidente do Implurb, Pedro Paulo Cordeiro, podem ocorrer interrupções pontuais em etapas que envolvam instalações elétricas ou esgotamento sanitário.
“Os bares não irão necessitar fechar. Lógico, talvez um dia ou outro, devido à questão de instalações elétricas, de esgotamento sanitário, poderão fechar suas portas, mas durante a obra eles poderão continuar funcionando”, explicou.
Comércio aposta
Para os empresários instalados na Ferreira Pena, o período de obras representa um transtorno temporário diante da expectativa de valorização do local.
A empresária Laura Abreu, que também mora no entorno do Centro, considera que a intervenção reconhece uma vocação que a região já desenvolveu ao longo dos últimos anos.

“Não existe transformação sem impacto. A gente acredita que os impactos vão ser em prol de algo muito maior, muito melhor, que vai requalificar a via e uma área cultural, de economia e vibrante do Centro”, afirmou.
Na avaliação dela, o reconhecimento da Ferreira Pena como polo gastronômico pode trazer mais ordenamento e ampliar a atratividade da região.
Esse é também um dos desafios do projeto: fazer com que a valorização da atividade noturna se converta em movimento econômico mais amplo e permanente.
Centro ocupado
A criação da Rua Gastronômica se insere em uma discussão maior sobre a recuperação do Centro Histórico.
Nos últimos anos, a região passou a conviver com um contraste: mantém parte importante da atividade comercial, cultural e administrativa da cidade, mas enfrenta perda de moradores, deterioração de imóveis e redução da ocupação em determinados horários.
Nesse contexto, projetos que estimulam permanência, circulação de pedestres e atividades econômicas fora do horário comercial surgem como instrumentos para tentar devolver movimento ao Centro.
A Ferreira Pena parte de uma vantagem: essa ocupação já existe.
O que a obra pretende fazer é criar infraestrutura para ampliar esse uso, conectando gastronomia, patrimônio, comércio e convivência.
Para o diretor-presidente do Implurb, Antonio Peixoto, a discussão prévia com moradores e empreendedores busca reduzir conflitos durante a execução.
“A gente precisa manter o diálogo para que a gente possa construir soluções”, afirmou.
Árvores preservadas
Um dos elementos mais importantes do projeto está acima das calçadas.
As 17 árvores existentes no trecho serão mantidas e incorporadas ao novo desenho urbano. Nenhuma está prevista para ser retirada durante a intervenção.
Em uma cidade de altas temperaturas durante boa parte do ano, a preservação da arborização é também um componente funcional do projeto, especialmente diante da proposta de incentivar caminhadas e permanência no espaço público.

As árvores formarão parte das áreas de convivência, que também receberão bancos, floreiras e outros elementos de paisagismo.
“A gente ainda está contando com essas árvores aqui maravilhosas. Então o espaço é propício. Aqui, com certeza, a caminhabilidade vai acontecer e vai ser superagradável”, afirmou Rejane Gaston.
Identidade preservada
A gerente de Patrimônio Histórico do Implurb, Landa Bernardo, destaca que a intervenção busca compatibilizar a modernização da infraestrutura com a preservação das características da área.
O projeto prevê melhorias nos passeios, iluminação, mobiliário e arborização, mas também considera a presença de moradias e imóveis inseridos no ambiente histórico do Centro.

A ideia não é criar uma rua nova desconectada do entorno, mas aproveitar uma vocação que já se consolidou no local.
Esse talvez seja o principal teste da futura Rua Gastronômica: conseguir transformar a Ferreira Pena sem retirar aquilo que fez dela um dos pontos de encontro mais conhecidos do Centro.
A obra começa na segunda-feira com alterações no trânsito e impactos temporários para quem mora, trabalha ou frequenta a área.
Quando estiver concluída, a expectativa é outra: que a Ferreira Pena deixe de ser apenas uma rua onde estão concentrados bares e restaurantes e passe a funcionar como um espaço urbano onde gastronomia, circulação, patrimônio e convivência possam dividir o mesmo endereço.


