Julho das Pretas valoriza cultura afro em Manaus
Programação reuniu música, dança, capoeira, gastronomia, artesanato e empreendedorismo feminino na Casa de Praia Zezinho Corrêa
A valorização da cultura afro-brasileira ganhou espaço na Casa de Praia Zezinho Corrêa, na Ponta Negra, zona Oeste de Manaus, durante o encerramento da programação do “Julho das Pretas”. Realizado pela Prefeitura de Manaus, o evento reuniu expressões culturais, saberes ancestrais e iniciativas de geração de renda conduzidas por mulheres negras.
Promovida pela Secretaria Municipal de Relações Institucionais e Promoção da Igualdade Racial (Semuripir), a programação foi realizada na tarde desta sexta-feira (31), com apresentações de música, dança e capoeira, além de feira de artesanato, gastronomia e ações voltadas ao empreendedorismo feminino.
Mais do que marcar o encerramento de um calendário comemorativo, o encontro transformou um dos principais espaços turísticos da cidade em ambiente de reconhecimento da contribuição da população negra para a formação cultural, social e econômica de Manaus.
A programação também reforçou a necessidade de ampliar os espaços destinados às manifestações afro-brasileiras e às mulheres negras, que historicamente enfrentam desigualdades no acesso ao mercado de trabalho, à renda e às posições de liderança.

Cultura como instrumento de inclusão
O diretor da Semuripir, Christian Rocha, afirmou que a realização do “Julho das Pretas” demonstra o compromisso da gestão municipal com a promoção da igualdade racial e com a construção de políticas públicas permanentes de enfrentamento ao racismo.
Segundo ele, a programação recebeu apoio do prefeito Renato Junior e integra uma agenda que busca valorizar a história, a ancestralidade e a identidade da população negra da capital amazonense.
“Mais do que celebrar uma data, estamos fortalecendo um movimento permanente de respeito, inclusão e transformação social”, afirmou.
Ao reunir diferentes expressões culturais em um mesmo espaço, o evento mostrou como a arte, a música, a dança e a gastronomia podem atuar como instrumentos de educação, pertencimento e combate ao preconceito.
A cultura afro-brasileira está presente em diferentes aspectos da vida cotidiana de Manaus, das manifestações religiosas aos ritmos musicais, da culinária às formas de organização comunitária. A programação deu visibilidade a essa presença e destacou a importância de preservá-la para as próximas gerações.
Capoeira e ancestralidade
Entre as manifestações apresentadas durante o evento, a capoeira ocupou lugar de destaque. Reconhecida como uma das maiores expressões da resistência negra no Brasil, a prática reúne luta, dança, música, disciplina e transmissão de conhecimentos entre gerações.
O mestre de capoeira Márcio Lima defendeu que atividades como o “Julho das Pretas” sejam incorporadas de forma permanente ao calendário cultural de Manaus.

“A capoeira, a música, a dança e todas as manifestações da cultura afro-brasileira fortalecem nossa identidade, aproximam as novas gerações das suas raízes e ajudam a combater o preconceito”, declarou.
Para ele, a valorização da cultura afro deve começar pela educação e pelo reconhecimento da contribuição dos povos negros para a construção do país.
A presença de mestres, artistas, artesãs e empreendedoras também permitiu que o público conhecesse diferentes formas de expressão da ancestralidade africana e afro-amazônica.
Mulheres negras em posição de protagonismo
A advogada e ativista Karla Carvalho ressaltou que a realização do evento adquire relevância especial no Amazonas, onde grande parte da população se reconhece como parda ou negra.
Para ela, criar espaços de protagonismo para as mulheres negras significa reconhecer sua contribuição para a sociedade e ampliar sua participação na economia, na política, na cultura e em outras áreas de decisão.

“Precisamos fortalecer cada vez mais o protagonismo das mulheres negras, ampliar os espaços de participação, incentivar o empreendedorismo e garantir que elas estejam ocupando posições de liderança”, destacou.
A programação também chamou atenção para o papel das mulheres negras na preservação de conhecimentos, tradições e práticas culturais transmitidas ao longo das gerações.
Muitas dessas mulheres são responsáveis pela manutenção de famílias, comunidades, negócios e projetos culturais, mesmo diante de dificuldades de acesso ao crédito, à qualificação e aos espaços de comercialização.
Cultura também gera renda
A feira instalada na Casa de Praia Zezinho Corrêa permitiu que artesãs e empreendedoras apresentassem produtos inspirados na cultura afro-brasileira e na identidade amazônica.
Peças artesanais, alimentos, roupas, acessórios e outros produtos transformaram o evento em uma vitrine para a economia criativa e para o trabalho desenvolvido por mulheres negras em Manaus.

A artesã Marlúcia Silva afirmou que iniciativas desse tipo contribuem para conquistar novos clientes, ampliar a renda familiar e fortalecer o reconhecimento do artesanato como instrumento de transformação social.
“É muito importante ter esse espaço para expor nossos produtos, conquistar novos clientes, gerar renda para nossas famílias e manter viva a cultura e a ancestralidade presentes em cada peça produzida”, afirmou.
Além do aspecto econômico, a feira mostrou que o empreendedorismo pode funcionar como caminho para a autonomia financeira e para o fortalecimento da identidade cultural.
Memória, resistência e futuro
Celebrado em diferentes regiões do país, o “Julho das Pretas” faz referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ambos lembrados em 25 de julho.
A data homenageia a resistência de mulheres negras que enfrentaram a escravidão, o racismo e as desigualdades sociais, ao mesmo tempo em que reconhece a atuação das mulheres que continuam lutando por direitos, respeito e oportunidades.
Em Manaus, o encerramento da programação reafirmou a cultura afro-brasileira como parte fundamental da identidade da cidade.
Ao reunir ancestralidade, arte, empreendedorismo e educação antirracista, o “Julho das Pretas” mostrou que a valorização da cultura negra não deve se limitar a um mês do calendário, mas integrar de forma permanente as políticas públicas, os espaços culturais e a vida social da capital amazonense.


