COMÉRCIODESTAQUE

Comércio do Amazonas se antecipa à seca e reforça logística

CDL Manaus articula alternativas por rios, estradas e balsas para reduzir riscos ao abastecimento diante do avanço da vazante em 2026

O comércio amazonense começou a se movimentar antes que a redução do nível dos rios transforme a logística em uma corrida contra o tempo. Diante da possibilidade de uma estiagem mais severa em 2026, empresas, operadores de transporte e entidades do setor produtivo discutem alternativas para garantir a chegada de mercadorias a Manaus e a distribuição para o interior do Estado.

À frente dessa articulação, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus (CDL Manaus), Ralph Assayag, afirma que as experiências acumuladas nas grandes secas dos últimos anos mudaram a forma como o setor encara a vazante. A estratégia agora é antecipar decisões, acompanhar diariamente o comportamento dos rios e preparar diferentes caminhos para evitar gargalos no abastecimento.

O cenário exige atenção. Boletim climático publicado em 19 de agosto aponta chuvas abaixo da média recente em áreas que incluem as bacias dos rios Negro e Tefé, além do curso principal dos rios Solimões e Amazonas.

Estoques antecipados

Uma das primeiras medidas avaliadas é antecipar a entrada no Amazonas de produtos que permitem armazenamento por períodos mais longos. A estratégia pode ampliar os estoques antes da fase mais crítica da vazante e reduzir a pressão sobre a logística quando a navegação passa a enfrentar maiores restrições.

O mesmo planejamento, porém, não pode ser aplicado indistintamente. Produtos perecíveis dependem de transporte mais rápido e exigem soluções específicas, o que aumenta a importância da combinação entre diferentes modais.

Segundo Ralph Assayag, o planejamento envolve ainda a organização do transporte de contêineres, a disponibilidade de balsas e empurradores e a avaliação das condições necessárias para que os navios continuem operando mesmo com a redução da profundidade dos rios.

A CDL já vinha discutindo essas medidas com empresas de navegação e representantes da autoridade marítima desde julho, em busca de alternativas capazes de preservar a circulação de cargas durante a estiagem.

Menor calado

Entre as alternativas analisadas está a utilização de embarcações de menor calado, que necessitam de menos profundidade para navegar. Outra possibilidade é a implantação de operações de transbordo, com a transferência de contêineres de navios maiores para balsas ou embarcações menores antes dos trechos mais críticos.

Esse tipo de operação, no entanto, depende de estrutura, equipamentos, disponibilidade de embarcações e planejamento prévio. Quanto mais tarde ocorrer a decisão, menor tende a ser a margem de manobra para transportadores e comerciantes.

É justamente esse risco que o setor busca evitar.

As limitações provocadas pela vazante podem aumentar o tempo das viagens e os custos das operações, com reflexos que alcançam desde os importadores e distribuidores até o preço final pago pelo consumidor. A questão dos custos logísticos já entrou, inclusive, nas discussões do setor produtivo diante da possibilidade de cobrança adicional no transporte de contêineres durante a seca.

Rotas alternativas

A estratégia também passa pela diversificação dos caminhos usados para abastecer o Amazonas. Além da navegação marítima e fluvial, são analisadas integrações por Belém, pelo rio Madeira e por rodovias.

A BR-319 aparece nesse debate como uma alternativa para determinadas cargas, especialmente aquelas em que o tempo de deslocamento representa fator decisivo.

Na avaliação de Assayag, uma conexão rodoviária mais eficiente permitiria reduzir o tempo de transporte de alguns produtos e diminuir, em determinadas situações, a dependência do modal aéreo, considerado muito mais caro.

Para o comércio, a solução dificilmente estará concentrada em apenas um meio de transporte. A tendência é que, nos períodos mais críticos, seja necessária uma combinação de navios, balsas, caminhões e, para cargas específicas, aviões.

Interior preocupa

Se vencer os trechos críticos até Manaus já representa um desafio, manter o abastecimento dos municípios do interior acrescenta outra camada de dificuldade.

Grande parte das cidades amazonenses depende diretamente dos rios para receber alimentos, combustíveis, medicamentos e mercadorias em geral. Com a redução do nível das águas, embarcações maiores podem perder capacidade de acesso, exigindo a substituição por barcos de menor porte e menor calado.

Por isso, o planejamento apresentado pela CDL Manaus não termina com a chegada dos contêineres à capital. Ele também considera a redistribuição das mercadorias para regiões onde a vazante restringe progressivamente a navegação.

O acompanhamento permanente dos rios tornou-se, assim, parte da estratégia econômica.

Depois de anos em que secas históricas expuseram a vulnerabilidade logística do Amazonas, o comércio tenta trocar a reação pela antecipação. Para Ralph Assayag, a articulação entre lojistas, operadores logísticos, empresas de navegação e poder público será determinante para reduzir atrasos, evitar rupturas no abastecimento e conter impactos maiores para empresas e consumidores.

A própria CDL vem ampliando essas articulações ao longo dos últimos meses, com reuniões envolvendo empresas de cabotagem, autoridades marítimas e representantes do setor produtivo.

Fotos: Arquivo/Divulgação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para o conteúdo