Três vezes premiado, Milton Hatoum busca novo Jabuti
Amazonense concorre com Dança de enganos, romance que encerra uma trilogia sobre memória e ditadura, e enfrenta Itamar Vieira Junior, Aline Bei e outros nomes da literatura nacional
O escritor amazonense Milton Hatoum volta a disputar o Prêmio Jabuti, uma das mais importantes distinções da literatura brasileira, carregando uma trajetória de reconhecimento que começou há mais de três décadas. Já premiado por três de seus romances, o autor manauara está entre os cinco finalistas da edição de 2026, na categoria Romance Literário, com Dança de enganos, publicado pela Companhia das Letras.
A relação dos finalistas foi divulgada na quarta-feira (14), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Entre os concorrentes estão Itamar Vieira Junior, vencedor de duas edições com obras de sua trilogia, e Aline Bei, além de Eliana Alves Cruz e Evandro Affonso Ferreira. O resultado será anunciado em 27 de outubro, durante cerimônia na Sala São Paulo.
Para Hatoum, a indicação representa mais um reconhecimento a uma obra construída em torno da memória, dos conflitos familiares e das marcas deixadas pela história brasileira. Embora seus romances mais conhecidos tenham Manaus como território central, sua literatura ultrapassa os limites geográficos da Amazônia e alcança questões universais, como identidade, pertencimento, perdas e relações de poder.
Uma trajetória marcada por premiações
Hatoum conquistou seu primeiro Jabuti em 1990, com Relato de um certo Oriente, romance de estreia publicado em 1989. A narrativa, ambientada em Manaus, já apresentava características que se tornariam marcas de sua escrita: personagens ligados pela memória, diferentes vozes narrativas e relações familiares atravessadas por silêncios e conflitos.
Em 2001, Dois irmãos recebeu o terceiro lugar na categoria Romance. A história dos irmãos gêmeos Yaqub e Omar, ambientada em uma Manaus em transformação, tornou-se uma das obras mais conhecidas do escritor e ganhou adaptação para a televisão em 2017.
O reconhecimento voltou em 2006, quando Cinzas do Norte conquistou o primeiro lugar na categoria Romance e também o prêmio Livro do Ano de Ficção. A obra acompanha conflitos entre amizade, família, arte e autoritarismo, em uma narrativa profundamente ligada às transformações políticas e sociais do Amazonas.
A trajetória inclui ainda outras distinções literárias, traduções para diferentes idiomas e adaptações audiovisuais, consolidando Hatoum entre os principais ficcionistas brasileiros contemporâneos.
Dança de enganos encerra projeto literário sobre a ditadura
Publicado em outubro de 2025, Dança de enganos conclui a trilogia O lugar mais sombrio, iniciada com A noite da espera (2017) e continuada em Pontos de fuga (2019).

Diferentemente dos romances que fizeram de Manaus um espaço central de sua ficção, a trilogia acompanha personagens envolvidos nas tensões políticas e afetivas do Brasil durante a ditadura militar, especialmente em Brasília e São Paulo.
No último volume, Hatoum desloca o centro da narrativa para Lina, mãe de Martim, protagonista dos livros anteriores. É pela perspectiva dela que o leitor revisita os acontecimentos do final dos anos 1960, os afastamentos familiares e as feridas deixadas pelo autoritarismo.
A mudança de narrador amplia a complexidade da história. Em vez de simplesmente concluir os acontecimentos apresentados nos dois primeiros romances, o escritor oferece outra interpretação do passado, revelando como uma mesma experiência pode adquirir sentidos diferentes conforme a memória de quem a conta.
Essa construção reafirma uma característica recorrente de sua literatura: o passado nunca aparece como uma lembrança inteiramente resolvida, mas como algo que continua interferindo nas escolhas, nos afetos e na vida dos personagens.
Itamar tenta completar trilogia premiada
A disputa também reúne outro nome de destaque da literatura brasileira contemporânea: o baiano Itamar Vieira Junior, autor de Torto arado, romance que conquistou o Jabuti de 2020 e alcançou projeção internacional.
Em 2024, Itamar voltou a vencer a categoria Romance Literário com Salvar o fogo. Agora, concorre com Coração sem medo, terceiro volume da chamada Trilogia da terra.
Se conquistar o prêmio novamente, o escritor terá uma marca particular: os três romances de sua trilogia reconhecidos com a principal premiação de suas respectivas categorias.
As obras de Itamar exploram relações com a terra, desigualdades sociais, ancestralidade e conflitos que atravessam a formação brasileira. Embora tenham propostas narrativas distintas, ele e Hatoum compartilham o interesse por personagens cujas histórias individuais revelam tensões profundas da sociedade.
A categoria reúne ainda Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei; Meridiana, de Eliana Alves Cruz; e Vez em quando, Billie Holiday, de Evandro Affonso Ferreira.



