DESTAQUEOPINIÃO

A dignidade de uma mulher não tem partido

O episódio envolvendo Alessandra Campêlo expõe os limites éticos da disputa eleitoral e a necessidade de uma sororidade que não se submeta às conveniências políticas

Por Dora Tupinambá — jornalista e fundadora do Valor Amazônico

Pensei muito antes de escrever este artigo. Não pela falta de convicção, mas pela consciência da responsabilidade que existe em cada palavra, especialmente quando a política atravessa um período de disputas intensas.

Sou jornalista, trabalhadora e exerço minha profissão na comunicação de um órgão público. Mas minha história não começou em um gabinete, nem foi construída à sombra de qualquer mandato.

Minha formação política nasceu no movimento estudantil, nas mobilizações pela meia-passagem em Manaus e, posteriormente, nas lutas sindicais. Aprendi cedo que direitos não são concessões espontâneas do poder. São conquistas de gerações que se organizaram, enfrentaram resistências e fizeram da participação coletiva um instrumento de transformação.

É com esse sentimento que reconheço a importância da implantação da gratuidade estudantil na gestão de David Almeida. Para quem participou das antigas mobilizações pela meia-passagem, ver esse direito ampliado tem um significado histórico e pessoal que ultrapassa qualquer circunstância eleitoral.

Mas foi também nessa caminhada que conheci uma das formas mais persistentes de desigualdade: o machismo.

Conheci o deboche usado para desqualificar a palavra feminina, as tentativas de constrangimento público e a resistência à presença de mulheres em espaços de decisão.

Por isso, o episódio envolvendo a deputada estadual Alessandra Campêlo, jornalista de formação e candidata a vice-governadora do Amazonas, não me passou despercebido.

O limite que a política não pode ultrapassar

Durante o debate realizado pela TV Norte, na terça-feira (13), imagens registraram gestos de Kidson Maia interpretados por Alessandra como ameaçadores. O vereador Sargento Salazar, aliado de Kidson, também reproduziu o gesto diante de jornalistas e apresentou uma interpretação diferente para o movimento.

Alessandra declarou ter se sentido ameaçada. O caso ganhou repercussão e motivou pedidos de investigação.

É indispensável que os fatos sejam apurados com rigor, preservando o direito de defesa e a responsabilidade individual de cada envolvido.

Entretanto, a necessidade de investigação não impede uma reflexão ética imediata.

A maneira como uma denúncia de intimidação é recebida também revela muito sobre a cultura política que estamos construindo. Deboche, ironia e ridicularização não contribuem para esclarecer acontecimentos dessa gravidade. Ao contrário, podem ampliar o constrangimento de quem relata ter sentido medo.

A disputa eleitoral deve admitir crítica contundente, confronto de ideias e questionamento de trajetórias públicas. O que não pode admitir é a naturalização de práticas que comprometam a dignidade e a liberdade de participação das mulheres.

Sororidade não é conveniência

É nesse contexto que precisamos falar de sororidade.

Sororidade é a solidariedade entre mulheres, construída a partir da empatia, do respeito e do reconhecimento de que nenhuma deve ser humilhada, intimidada ou discriminada por sua condição feminina.

Não significa amizade, concordância ideológica ou apoio eleitoral.

Significa compreender que existem direitos e valores que não podem ser relativizados conforme a identidade política de quem está envolvida.

Esse princípio sempre orientou meus posicionamentos. Já me manifestei em solidariedade a Izabelle Almeida e Michelle Bolsonaro diante de agressões que sofreram, independentemente de concordância com suas ideias ou posições políticas.

A coerência exige que o respeito reivindicado para uma mulher também seja assegurado àquela que está do outro lado do debate.

Essa responsabilidade é de toda a sociedade e também das lideranças femininas. Esperar manifestações claras contra a intimidação de mulheres não significa exigir alianças entre adversárias. Significa reconhecer que a defesa da dignidade feminina não pode depender do resultado das urnas.

O episódio envolvendo Alessandra também provocou a reação de organizações feministas. O Fórum Permanente de Mulheres de Manaus encaminhou representação ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, solicitando a investigação dos fatos e a avaliação de medidas de proteção.

A mobilização demonstra que o problema não precisa ser tratado exclusivamente como um confronto entre grupos eleitorais. Existe uma dimensão coletiva relacionada à presença e à segurança das mulheres na política.

Minha história também explica meu silêncio — e minha voz

Confesso que pensei em permanecer calada.

Sou uma mulher trabalhadora, com responsabilidades profissionais e familiares. Sei que manifestações públicas podem provocar interpretações, divergências e consequências.

Mas também me lembrei da jovem militante estudantil que fui, das assembleias sindicais, das dificuldades enfrentadas e de tantas mulheres que encontraram coragem porque outras decidiram não se omitir.

Não escrevo estas palavras em nome da instituição pública onde trabalho, nem como representante de partido, governo ou candidatura.

Este é um posicionamento pessoal, publicado no espaço jornalístico que ajudei a construir, fundamentado na minha trajetória e na defesa de princípios que considero indispensáveis à democracia.

Não se trata de antecipar julgamentos ou atribuir responsabilidades antes da devida apuração.

Trata-se de afirmar que nenhuma mulher deve ser obrigada a aceitar o constrangimento, a intimidação ou a humilhação como parte inevitável da participação política.

A democracia exige liberdade para discordar. Mas exige, acima de tudo, respeito à dignidade humana.

Porque a sororidade não pode ser seletiva. E a dignidade de uma mulher não tem partido.

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