Bioeconomia ganha espaço na estratégia de futuro da ZFM
Subtítulo: Agenda discutida no CAS reforça busca por novos negócios capazes de transformar biodiversidade, pesquisa e conhecimento em produção e renda na Amazônia.
Por décadas, falar em Zona Franca de Manaus significou, quase automaticamente, falar em televisores, motocicletas, aparelhos de ar-condicionado, celulares e outros produtos fabricados nas linhas de montagem do Polo Industrial de Manaus (PIM).
A discussão sobre o futuro do modelo, no entanto, começa a incorporar com mais força outro ativo que está do lado de fora dos galpões industriais: a biodiversidade amazônica.
A bioeconomia ganhou espaço entre os temas relacionados à modernização e à diversificação da Zona Franca debatidos no ambiente da reunião do Conselho de Administração da Suframa (CAS). O desafio é fazer com que pesquisas, insumos naturais, conhecimento tradicional e soluções desenvolvidas na região consigam ultrapassar a fase experimental e chegar ao mercado em escala.
É uma fronteira econômica especialmente relevante para um estado que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta, mas ainda enfrenta dificuldades para converter esse patrimônio natural em produtos de maior valor agregado, empresas consolidadas, emprego e renda.
O próprio Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), ligado à política de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Suframa, foi concebido para captar investimentos destinados à criação de produtos, serviços e novos negócios da bioeconomia amazônica. Entre as áreas contempladas estão a prospecção de princípios ativos e novos materiais da biodiversidade, biotecnologia, reaproveitamento de resíduos, tecnologias ambientalmente sustentáveis e negócios de impacto social e ambiental.
Da pesquisa para o mercado
Essa talvez seja hoje uma das principais questões da bioeconomia amazônica.
A região produz conhecimento científico, possui universidades, institutos de pesquisa, startups e empreendedores desenvolvendo soluções baseadas na floresta. A dificuldade histórica tem sido transformar esse conhecimento em negócios capazes de crescer, receber investimentos e disputar mercados nacionais e internacionais.
A própria Suframa reconhece essa necessidade.
Nos últimos anos, a autarquia vem tentando aproximar a estrutura da Zona Franca de empreendedores e empresas que atuam com biodiversidade, bioindústria e inovação.
Em evento realizado em 2025, a Suframa destacou que o objetivo do PPBio é agregar valor aos produtos regionais, fortalecer cadeias produtivas e criar oportunidades para as comunidades amazônicas.
A lógica representa uma mudança importante.
Em vez de limitar a bioeconomia à comercialização de matérias-primas amazônicas, a proposta é aumentar o processamento, a tecnologia e o valor agregado dentro da própria região.
Em outras palavras: não apenas extrair um óleo, fruto ou princípio ativo da floresta, mas desenvolver tecnologia, formular produtos, registrar propriedade intelectual, produzir em escala e construir empresas a partir deles.
Dinheiro da indústria financiando a nova economia
A Zona Franca possui uma ferramenta importante para acelerar esse processo: os recursos obrigatórios de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação vinculados à Lei de Informática.
Segundo dados apresentados pela própria Suframa, R$ 149 milhões foram direcionados ao ecossistema regional de bioeconomia em cinco anos, por meio dessa política de investimentos em pesquisa e inovação.
É justamente essa conexão entre a indústria já instalada e os novos negócios da floresta que pode determinar a velocidade do desenvolvimento de uma bioeconomia com escala no Amazonas.
O PPBio permite direcionar recursos para áreas que vão desde a descoberta de princípios ativos e novos materiais até bioinformática, biorremediação, reaproveitamento de resíduos, tecnologias para sistemas produtivos regionais e criação ou aprimoramento de parques de bioindústrias.
Assim, parte da riqueza produzida por uma indústria tradicionalmente baseada em componentes eletrônicos e manufatura pode ajudar a financiar uma nova geração de empresas ligadas aos ativos naturais amazônicos.
Uma segunda perna para a Zona Franca
A discussão não significa substituir o Polo Industrial.
O PIM continua sendo o principal motor econômico do Amazonas e o maior gerador de empregos industriais formais do Estado.
A questão é diminuir a dependência de uma única matriz.
Essa preocupação já foi manifestada dentro da própria Suframa. Ao discutir as oportunidades do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), representantes da autarquia defenderam o fortalecimento das vocações regionais para que a economia não dependa de maneira tão intensa da indústria manufatureira.
A bioeconomia surge, nesse contexto, não como concorrente da Zona Franca, mas como uma possível extensão dela.
A diferença está na matéria-prima.
Enquanto boa parte da indústria tradicional recebe componentes produzidos fora da região e realiza em Manaus as etapas previstas pelos Processos Produtivos Básicos, uma indústria baseada na biodiversidade pode ter parte importante de sua cadeia começando dentro da própria Amazônia.
Isso significa potencial para distribuir renda por outros territórios, envolvendo produtores, comunidades, cooperativas, pesquisadores, startups, laboratórios e indústrias.
O desafio da escala
O potencial, porém, não elimina os obstáculos.
Um produto desenvolvido a partir da biodiversidade precisa enfrentar etapas de pesquisa, certificação, propriedade intelectual, regularização sanitária, estruturação de cadeia de fornecimento e acesso a capital antes de chegar ao mercado.
E existe uma distância considerável entre produzir dezenas ou centenas de unidades de uma solução inovadora e fornecer milhares ou milhões delas para grandes empresas.
Por isso, aproximar startups, centros de pesquisa e indústrias é estratégico.
A própria política de bioeconomia da Suframa inclui entre suas frentes a criação de ambientes de inovação, incubadoras e parques de bioindústrias capazes de ajudar esses negócios a avançar da pesquisa para a produção.
Floresta precisa gerar valor em pé
Há também um componente ambiental nessa equação.
Transformar biodiversidade em atividade econômica sustentável significa criar valor para a manutenção da floresta.
O princípio é simples: quanto maior for a capacidade de gerar renda a partir de cadeias produtivas compatíveis com a conservação, maior será a possibilidade de mostrar que a floresta preservada possui valor econômico concreto.
Mas isso só acontece quando a renda chega a quem vive no território.
Uma bioeconomia concentrada apenas em laboratórios ou empresas urbanas teria alcance limitado. Para produzir transformação regional, precisa conectar ciência e indústria às comunidades que detêm conhecimento, produzem matérias-primas e vivem nas áreas onde estão esses recursos.
É nessa conexão que está uma das oportunidades mais relevantes para o Amazonas.
A Zona Franca já construiu ao longo de décadas uma estrutura de incentivos, produção industrial, pesquisa e desenvolvimento.
A bioeconomia pode acrescentar a essa estrutura aquilo que nenhum outro polo industrial brasileiro possui na mesma dimensão: a floresta amazônica como fonte de conhecimento, inovação e novos negócios.
O próximo desafio é fazer com que essa vantagem deixe de ser apenas uma promessa.


