Da Ilha Tupinambarana ao Cariri: espetáculo leva cultura amazônica ao Nordeste
“Saga Cabocla”, idealizado pela bailarina Mônica Seffair, emociona plateias no Ceará e fortalece o intercâmbio entre duas das mais ricas tradições culturais do Brasil
Da Ilha Tupinambarana para o sertão cearense, a arte amazônica encontrou novos palcos e novos olhares. O espetáculo “Saga Cabocla”, idealizado pela bailarina, coreógrafa e mestra da cultura Mônica Seffair, levou ao Cariri uma narrativa construída a partir da memória, da identidade e da força da mulher amazônica, emocionando o público e reafirmando a capacidade da produção cultural de Parintins de dialogar com diferentes regiões do país.
As apresentações ocorreram no Teatro Patativa do Assaré (Sesc Juazeiro) e no Instituto Arte e Dança do Cariri (IADC), em Juazeiro do Norte (CE), dentro do projeto “Conexão Cabocla: Da Ilha da Magia à Terra do Cariri”, iniciativa que promove o intercâmbio entre artistas amazônicos e nordestinos com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, do Conselho Estadual de Cultura e do Governo Federal.
Mais do que apresentar um espetáculo, a companhia formada por sete artistas parintinenses levou ao palco uma experiência sensorial que aproximou o público da cultura amazônica por meio da dança, da música, do teatro e de elementos tradicionais do cotidiano caboclo.

Muito além do Festival de Parintins
Reconhecida nacionalmente pelo Festival Folclórico de Parintins, a ilha vive um momento de expansão de sua produção artística. Cada vez mais, profissionais formados no ambiente criativo dos bois Caprichoso e Garantido ocupam teatros, festivais e projetos culturais em diferentes estados brasileiros, levando consigo novas linguagens e narrativas inspiradas na Amazônia.

“Saga Cabocla” representa esse movimento.
Em vez de reproduzir o universo do boi-bumbá, o espetáculo apresenta uma criação autoral que mistura dança contemporânea, teatro e música para contar a história de uma mulher amazônica que deixa o interior em busca de oportunidades na cidade sem romper os laços com sua origem.
A montagem transforma objetos do cotidiano — como tarrafas, malhadeiras, cestos, bacias, saias de carimbó e pinturas corporais — em elementos cênicos carregados de simbolismo, construindo uma narrativa sobre pertencimento, memória, resistência e identidade.

Encontro entre duas culturas populares
A escolha do Cariri como destino da temporada vai além da circulação artística.
Conhecida pela força da religiosidade popular, do Reisado, da xilogravura e das tradições ligadas à figura de Padre Cícero, a região cearense também preserva manifestações culturais profundamente enraizadas na memória de seu povo.
Foi nesse encontro entre Amazônia e Nordeste que o projeto ganhou ainda mais significado.

Além das apresentações, a companhia realizou oficinas de boi-bumbá, promoveu a exibição do curta-metragem “Sonho de uma Cabocla” e participou de um intercâmbio com o tradicional Reisado Arcanjo Gabriel, aproximando duas expressões culturais brasileiras que compartilham a valorização da oralidade, da ancestralidade e das tradições populares.

A emoção de representar a Amazônia
Para muitos integrantes da companhia, a temporada no Ceará marcou a primeira oportunidade de apresentar a cultura amazônica fora do Estado.
A bailarina Ana Sophia Muniz, de 15 anos, viajou pela primeira vez para outra região do país e destacou a importância da troca cultural proporcionada pelo projeto.

Já o cenógrafo Wilton Oliveira viveu uma experiência especial ao integrar o elenco como ator. No palco, interpretou um pescador inspirado na trajetória do pai, Benedito, transformando lembranças familiares em parte da narrativa do espetáculo.
Amazônia além dos estereótipos
Entre os espectadores, um dos aspectos mais elogiados foi justamente a oportunidade de conhecer uma Amazônia diferente daquela normalmente retratada pela televisão.

Formada em Teatro, a cearense Lauane Miranda afirmou ter se emocionado ao assistir à montagem, destacando a beleza da cenografia, das coreografias e da utilização de elementos tradicionais amazônicos para construir uma narrativa contemporânea.
Cultura que aproxima o Brasil
Mais do que uma temporada fora do Amazonas, “Saga Cabocla” demonstra a maturidade da produção artística construída em Parintins.
Ao levar para outros estados histórias inspiradas na identidade amazônica, artistas da ilha mostram que a cultura produzida na região dialoga com diferentes públicos sem perder suas raízes.

Em um momento em que a Amazônia ocupa espaço crescente nas discussões ambientais e econômicas, iniciativas como essa revelam outra dimensão igualmente importante da região: sua potência cultural.
Da Ilha Tupinambarana ao Cariri, “Saga Cabocla” reafirma que a arte amazônica ultrapassa fronteiras geográficas, aproxima territórios e fortalece o diálogo entre diferentes identidades brasileiras.
Fotos: Luiz NaNuvem


