Bióloga do Inpa conquista maior prêmio da ciência brasileira
Maria Teresa Piedade é reconhecida por quase cinco décadas de pesquisa sobre áreas úmidas e alerta para riscos ambientais na região
A ciência produzida na Amazônia ganhou projeção nacional e internacional com o anúncio da bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade como vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2026, a mais alta distinção científica do país. O reconhecimento foi divulgado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, em parceria com a Marinha do Brasil.
Criado em 1981, o prêmio é concedido anualmente a pesquisadores que se destacam por contribuições relevantes à ciência e à tecnologia. A cerimônia de entrega está marcada para o dia 7 de maio, no Rio de Janeiro, onde a pesquisadora receberá diploma, medalha e o valor de R$ 200 mil.
Trajetória consolidada
Com quase 50 anos dedicados à pesquisa na Amazônia, Maria Teresa construiu uma carreira marcada pela investigação dos ecossistemas aquáticos da região. Atualmente, atua como docente nos programas de pós-graduação em Ecologia e Botânica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e lidera o grupo de pesquisa Maua, voltado à ecologia, monitoramento e uso sustentável de áreas úmidas.
O interesse pela Amazônia surgiu ainda na graduação em Biologia, na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. O que começou como um sonho distante ganhou forma após sua especialização no próprio Inpa.
“Quando fiz minha primeira viagem ao Rio Negro, percebi que era ali que eu queria trabalhar”, relembra a pesquisadora, ao destacar a conexão com os ambientes aquáticos que marcariam toda a sua trajetória científica.
Ciência e cooperação
Ao longo da carreira, Maria Teresa também participou de iniciativas internacionais de grande relevância, como o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia e a cooperação entre o Brasil e a Sociedade Max-Planck, da Alemanha. No Brasil, integrou o Conselho Nacional de Zonas Úmidas e contribuiu com diagnósticos sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
Sua atuação consolidou a Amazônia como um dos principais laboratórios naturais do mundo para estudos ambientais, especialmente no que diz respeito à dinâmica das águas.
Dinâmica das águas
Entre suas principais linhas de pesquisa está o impacto das cheias e vazantes dos rios amazônicos sobre a biodiversidade e os estoques de carbono. Segundo a cientista, o regime das águas molda profundamente os ecossistemas da região.
“As variações no nível dos rios transformam os sistemas de maneira única, influenciando cadeias alimentares e adaptações dos organismos”, explica.
Atualmente, a pesquisadora também investiga os efeitos de intervenções humanas nesses ambientes. Um dos exemplos é a análise das consequências da Usina Hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, onde estudos apontam a morte gradual de florestas em áreas extensas devido à alteração no regime hídrico.
Alerta climático
A cientista chama atenção para a dimensão estratégica dos sistemas aquáticos amazônicos. Segundo ela, as áreas de várzea e igapó ocupam cerca de 750 mil quilômetros quadrados, enquanto os igarapés ultrapassam 1 milhão de quilômetros quadrados.
Esses ambientes desempenham papel essencial no equilíbrio climático do país, contribuindo para a formação dos chamados “rios voadores”, que distribuem umidade para outras regiões do Brasil.
Para Maria Teresa, a preservação desses sistemas é urgente. “Estamos em uma corrida contra o tempo diante de ações humanas que aceleram a degradação e intensificam as mudanças climáticas”, alerta.
Reconhecimento estratégico
A premiação reforça o protagonismo da ciência amazônica em um momento de crescente atenção global às questões ambientais. Além disso, evidencia a importância de investimentos contínuos em pesquisa para garantir a conservação dos ecossistemas e o desenvolvimento sustentável da região.
Érico Xavier/Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas


