O grito que vem das águas ecoa das cirandas de Manacapuru
Realizado entre 29 e 31 de agosto de 2025, o festival transformou a arena cultural em palco de protesto poético contra a crise climática, reafirmando o papel dos povos tradicionais e originários na defesa da Amazônia como nossa grande maloca
Por Dora Tupinambá (*)
As águas do Solimões voltaram a falar alto em Manacapuru. Nos dias 29, 30 e 31 de agosto, não foi apenas a competição entre cores e passos coreografados que emocionou o público no Cirandódromo, o Parque do Ingá. O 27º Festival de Cirandas de Manacapuru se transformou em um clamor coletivo pela Amazônia, uma denúncia poética dos desequilíbrios climáticos que já atingem nossas cidades, florestas e rios.
A vitória da Ciranda Tradicional, com o tema “Sapucaîa’y – O Grito que Vem das Águas”, foi mais que uma conquista artística: foi um manifesto. Em meio às coreografias e alegorias, ecoou o alerta de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos que enfrentam, na pele, os efeitos de estiagens prolongadas, cheias extremas e a perda de territórios ancestrais.
Os três grupos que disputaram o festival fizeram da arte uma arma política. A Flor Matizada, vice-campeã, apresentou o tema “Amazônia: Sonho e Luta Cirandeira”, projetando a resistência cultural como força vital para a floresta.

Já os Guerreiros Mura evocaram as dores e segredos das águas no espetáculo “Estiagem e Alagação: O Segredo das Águas”, lembrando que a oscilação violenta dos rios não é apenas fenômeno natural, mas consequência do colapso climático em curso.

Juntos, os espetáculos reforçaram a percepção de que a Amazônia não é apenas cenário, mas sujeito político: uma voz coletiva que denuncia, questiona e exige mudanças.
A ciranda como voz dos povos
Se em Brasília e nas cúpulas internacionais muitas vezes a Amazônia é tratada como estatística ou moeda de barganha, em Manacapuru a floresta ganhou corpo, canto e dança. A ciranda reafirmou sua essência de cultura popular engajada, feita por mãos de comunidades, costureiras, carpinteiros, artistas e lideranças que sabem que defender a arte é também defender a vida.
Esse grito que se levanta do Médio Solimões conecta-se às aldeias indígenas, às comunidades tradicionais e à juventude urbana da Amazônia, todos imersos na mesma batalha: manter viva a grande maloca que é nossa floresta.
Do Cirandódromo para o mundo
A mensagem que sai de Manacapuru ultrapassa fronteiras locais. Em um ano em que a COP30, em Belém, colocará a Amazônia no centro das negociações globais sobre clima e biodiversidade, o festival se torna símbolo de como os povos amazônidas se apropriam da própria narrativa. Não falamos apenas de preservação, mas de direitos, justiça climática e sobrevivência cultural.
As cirandas mostraram que, ao dançar em roda, falamos a uma só voz: a de quem sente os rios baixarem cedo demais, a de quem perde a colheita pela cheia, a de quem não aceita ver seu território tomado pela ganância do desmatamento e da mineração.
Engajamento e crítica
Enquanto alguns ainda insistem em reduzir a Amazônia a números ou a um palco de interesses externos, as cirandas de Manacapuru lembram que aqui pulsa uma consciência coletiva. A floresta não é silêncio: ela fala através da cultura, dos corpos em movimento, dos cantos que ecoam como denúncia e esperança.
Esse é o recado que enviamos ao Brasil e ao mundo: não estamos calados. Somos povos tradicionais, originários e amazônidas que transformam arte em resistência, e resistência em futuro.
(*) Jornalista, fundadora e colaboradora do Valor Amazônico


