Acervo arqueológico da Hidrelétrica de Balbina recebe análise técnica após 30 anos da coleta

Projeto demandado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para Eletrobras, foi realizado pela Inside Consultoria Científica, e vai ser exposto em Manaus

Ana Celia Ossame

O acervo com mais de 1,5 milhão de peças de material cerâmico, mais de um mil (1.413) em material lítico (objetos produzidos em pedra) e cerca de 460 louças recolhidas entre os anos de 1987 e 1988, no município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus) antes da inundação para a formação do lago da Hidrelétrica de Balbina, recebeu, finalmente, análise técnica de uma equipe multidisciplinar.

As análises visam tanto a conservação desses materiais quanto gerar conhecimentos que revelem parte do modo de vida dos povos que habitaram aquela área.

Em 2019, por meio de uma parceria institucional entre a Inside Consultoria Científica, Eletrobras e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e Universidade Federal de Rondônia (Unir), proporcionou essa análise feita a partir do projeto “Curadoria, análise, conservação e Educação Patrimonial do acervo arqueológico da UHE Balbina”.

Sob a coordenação do professor doutor Rhuan Carlos Lopes, da Unilab, e com a participação da mestra em arqueologia Anna Barbara Cardoso da Silva, da Inside Consultoria, o projeto fez não só a curadoria e análise, mas também atividades de educação patrimonial sobre o acervo da usina de Balbina.

Rhuan explica que além do acervo de Balbina, composto por mais de 1,5 milhão de peças entre material cerâmico, há também o lítico (material em pedra), como três grandes matacões (blocos rochosos) com gravuras rupestres e ainda material do período posterior à colonização, com louças, material em ferro, projéteis de balas de revólver e facão.

Além disso, segundo ele, foram identificados materiais etnográficos que faziam parte do acervo do Museu de Balbina, que seria do povo Waimiri-Atroari, habitante secular daquela região.

Acervo guardado

Rhuan relembra que todo esse material foi coletado durante a pesquisa arqueológica feita em 1987 por conta da construção da Hidrelétrica de Balbina, sob a coordenação da professora Arminda Mendonça de Souza, referência na área e que tem muitas informações preciosas sobre o acervo.

“A professora realizou identificação dos sítios em 1987, mas a partir de 1988 saiu da coordenação, outros seguiram com o trabalho que acabou interrompido depois, sendo o material guardado por todos esses anos”, disse ele, até que a Eletronorte foi cobrada pelo Iphan, e viabilizou a contratação da Inside Consultoria para o trabalho.

“O material coletado foi parcialmente limpo, identificado e registrado, mas nunca passou por análise técnica e cientifica porque o projeto não foi finalizado devido a cortes financeiros”, explicam Rhuan e Bárbara, citando que agora eles seguindo a legislação contemporânea, que trouxe muitas mudanças.

Com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) começou a cobrar a conclusão da pesquisa da Eletrobras, o projeto foi demandado e por meio de licitação, a Inside Consultoria foi selecionada e iniciou um trabalho em campo em 2019. Outro trabalho paralelo de educação patrimonial, direcionado ao público do entorno, de Presidente Figueiredo e da Vila de Balbina.

Ao longo desse processo todo, segundo Rhuan, foram estabelecidas parcerias como a do Laboratório Alfredo Mendonça de Souza, de arqueologia, que é vinculado à Secretaria de Estado da Cultura (SEC).

Essa parceria vai permitir que todo o acervo vá para um local definitivo, que será o Centro Cultural Teatro Chaminé, cujo prédio passou por reformulações e adaptações para receber o material. Assim que estiver todo organizado, será possível visitar para conhecer esse rico acervo arqueólogo, afirma Rhuan.

Para ele, esse acervo é fundamental por contar a história de um período longo na região do Uatumã, pois tem material de mil anos antes do presente, de acordo com a datação feita ainda na década de 1980.

“Os objetos falam de espaços construídos ao longo do tempo, qual era o objetivo dessa população em relação a ocupação e quais impactos dessa população nessa região”, argumenta o pesquisador.

Vila de Balbina

Por meio de um acordo entre a Inside e o Iphan, os matacões, que são grandes blocos de pedras com inscrições rupestres, ficarão em Balbina, em exposição permanente em uma das salas do Centro de Pesquisa e Reabilitação de Animais Silvestres (CEPRAS), que será recuperado e aberto para visitação por turistas e por estudantes.

A exposição irá contar a história da ocupação humana na região, integrando informações sobre os matacões, o acervo etnográfico e a Vila Balbina. Parte dessa história incluirá dados inéditos sobre o antigo Centro de Proteção Ambiental (CPA), hoje desativado, mas que é uma construção do premiado arquiteto Severiano Mário Porto, de 1984, idealizado para receber pesquisas. A Inside conseguiu acervo de plantas e croquis do CPA na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Workshop virtual

Outro resultado do “Projeto de Curadoria, Análise e Educação Patrimonial” será apresentado nos próximos dias 10, 11 e 12, em um seminário on-line que estará disponível a todos os interessados no assunto com o objetivo de apresentar as pesquisas arqueológicas na área.

Para receber a certificação de 12 horas, a inscrição deve ser realizada pelo link http://insideamazonia.com.br/workshop/ até 9 de maio.

O workshop pretende apresentar os resultados parciais das pesquisas desenvolvidas junto a um dos maiores acervos arqueológicos do Brasil, o da Usina Hidrelétrica de Balbina, localizada no estado do Amazonas.

No dia 10, a partir das 14hs, o seminário será aberto com a palestra “História e memória do acervo arqueológico da Usina Hidrelétrica de Balbina”, a ser apresentada pelo doutor Rhuan Carlos Lopes, coordenador do projeto e docente na Unilab.

A mesa dos debates terá participação de Monica Araújo Nogueira, do Instiuto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Marco Araújo, secretário de Cultura do Estado do Amazonas (SEC), Tatiana Pedrosa, diretora do Laboratório Alfredo Mendonça de Souza da SEC, Wagner Veiga, diretor da Inside Consultoria, Juliana Santti, coordenadora adjunta do projeto pela Unir e Gisele Lopes Calderaro, representando a Eletrobras.

O workshop é aberto ao público e direcionado a quem se interessar pelo tema. Haverá transmissão pelas redes sociais Facebook e Instagram da @insideconsultoriacientífica.

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