Água, energia e renda entram na pauta sobre o futuro da Amazônia
Agenda apresentada pela FAS reúne propostas para o ciclo 2027–2030 e defende políticas voltadas à qualidade de vida, sociobioeconomia e adaptação climática
Água potável durante as secas, energia para conservar alimentos e movimentar atividades produtivas, internet para ampliar o acesso à saúde e à educação e mercado para comercializar o que é produzido dentro da floresta. Demandas que fazem parte do cotidiano de comunidades, aldeias e territórios remotos da Amazônia estão sendo levadas ao debate sobre as políticas públicas do próximo ciclo de governo.
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) reuniu essas prioridades na publicação “Amazônia que prospera: propostas de políticas públicas para a Amazônia Profunda”, que apresenta 11 recomendações para o período de 2027 a 2030.
De caráter técnico e apartidário, segundo a instituição, o documento é direcionado a candidaturas aos Poderes Executivo e Legislativo, nas esferas estadual e federal, às equipes responsáveis pela elaboração dos programas de governo e a futuros gestores públicos.
As propostas estão organizadas em quatro eixos e partem de uma premissa central: conservação ambiental, geração de renda e melhoria da qualidade de vida precisam avançar juntas.
Produção local pode ganhar mercado
Uma das propostas é ampliar o uso das compras públicas como instrumento de fortalecimento da agricultura familiar e da sociobiodiversidade.
A ideia é aumentar a presença de alimentos produzidos nos próprios territórios no abastecimento de escolas, hospitais, bases militares e outras instituições públicas, utilizando programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Mas a proposta vai além da compra. A agenda recomenda apoio à regularização dos produtores, organização da produção, transporte, logística e comercialização, pontos que ainda dificultam o acesso de pequenos produtores amazônicos a mercados institucionais.
Outro caminho apontado é investir em beneficiamento, armazenamento, refrigeração e cadeia de frio, permitindo que uma parcela maior do valor gerado pela produção permaneça nas próprias comunidades.
A agenda também prevê crédito, capacitação, assistência técnica e acesso a mercados, com atenção especial para negócios liderados por mulheres e jovens.
Energia para produzir e gerar renda
Na Amazônia, acesso à energia significa mais do que iluminação.
Em comunidades isoladas, eletricidade pode representar a possibilidade de refrigerar pescado, conservar alimentos, produzir polpas, beneficiar produtos da floresta e desenvolver pequenos empreendimentos.
Por isso, uma das recomendações é que políticas de universalização energética considerem não apenas o consumo das residências, mas também as necessidades de empreendimentos comunitários, escolas e serviços de saúde.
A proposta defende expansão de fontes renováveis e infraestrutura dimensionada para atividades produtivas, acompanhada de condições de operação e manutenção nos próprios territórios.
Internet ligada à saúde e à educação
A conectividade também aparece como parte da infraestrutura necessária para reduzir as distâncias amazônicas.
A agenda propõe que a expansão da internet esteja associada ao acesso a serviços públicos e oportunidades econômicas.
Na área da saúde, a conectividade pode ampliar o uso da telessaúde, permitindo acompanhamento especializado mesmo em localidades distantes dos grandes centros, desde que internet, energia, equipamentos e profissionais funcionem de forma integrada.
Na educação, a conexão amplia o acesso a conteúdos, formação e serviços que dificilmente chegariam com a mesma frequência a comunidades isoladas.
Água ganha importância diante das secas
A segurança hídrica ocupa outro ponto central das propostas.
O documento recomenda investimentos em sistemas descentralizados e modulares de captação, tratamento, armazenamento e distribuição de água, principalmente em comunidades vulneráveis às secas e à contaminação.
Os eventos climáticos extremos dos últimos anos reforçaram a necessidade de políticas permanentes para lidar com estiagens severas, incêndios florestais e alterações no regime dos rios.
A proposta da FAS é que adaptação e resiliência climáticas sejam incorporadas aos Planos Plurianuais, às leis orçamentárias e ao planejamento de estados e municípios.
Isso inclui investimentos contínuos em segurança hídrica e alimentar, prevenção de incêndios, energia renovável, comunicação, proteção da produção e infraestrutura mais resistente aos extremos climáticos.
Conservação também precisa gerar benefícios
A agenda trata ainda de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), mercado de carbono e financiamento climático.
A recomendação é ampliar mecanismos capazes de remunerar populações que contribuem para a conservação da floresta e criar regras transparentes para que recursos associados ao carbono e ao financiamento climático gerem benefícios nos próprios territórios.
O documento cita como exemplo o programa Guardiões da Floresta, do Governo do Amazonas, implementado com apoio da FAS. Segundo os dados apresentados pela organização, a iniciativa alcançou 11.548 famílias em 2024, com mais de R$ 13,8 milhões em pagamentos diretos.
A agenda também defende que as populações locais participem das decisões relacionadas à aplicação desses recursos.
Bioeconomia precisa deixar mais valor na floresta
Outro eixo propõe fortalecer as cadeias da sociobioeconomia para que uma parcela maior da riqueza produzida permaneça nos territórios.
A recomendação envolve crédito público, assistência técnica, infraestrutura de beneficiamento, logística, certificação, rastreabilidade e acesso a mercados.
Um exemplo de iniciativa já em execução no Amazonas é o projeto Prospera na Floresta, apoiado pelo Fundo Amazônia. O projeto tem valor total de R$ 60,59 milhões e busca fortalecer atividades produtivas sustentáveis, turismo de base comunitária e empreendedorismo ligado à sociobioeconomia em áreas protegidas do estado.
Capacidade de executar políticas
As propostas não se limitam a novos programas.
Um dos eixos aborda a capacidade de estados, municípios e organizações comunitárias de transformar recursos disponíveis em projetos efetivamente executados.
A agenda propõe fortalecer estruturas técnicas para planejamento, engenharia, elaboração e gestão de projetos, ampliar o acesso a fundos e financiamentos e apoiar organizações locais na administração dos recursos.
A avaliação apresentada pela FAS é que, na Amazônia, boas políticas públicas dependem não apenas de financiamento, mas de capacidade institucional para chegar até comunidades dispersas em um território marcado por grandes distâncias e forte dependência dos rios.
Próximo ciclo de governo
A apresentação da agenda ocorre durante o processo eleitoral de 2026, quando candidaturas estaduais e nacionais apresentam prioridades para os próximos quatro anos.
A FAS afirma que o documento não representa apoio a candidaturas e busca oferecer subsídios técnicos para o planejamento do período de 2027 a 2030.
Ao reunir água, energia, conectividade, produção, mercado, adaptação climática e conservação na mesma agenda, as propostas colocam no debate uma questão que vai além da eleição: como transformar a riqueza ambiental da Amazônia em melhores condições de vida e oportunidades econômicas para as populações que vivem no território.
A proposta é que manter a floresta em pé também signifique ampliar renda, acesso a serviços essenciais e capacidade das comunidades de enfrentar um cenário de mudanças climáticas cada vez mais presente.


