DESTAQUEMEIO AMBIENTE

Vazante acelera e Rio Negro perde 2,83 metros em setembro

Rio chegou a 21,26 metros e recua até 19 centímetros por dia; cenário aumenta atenção para evolução da estiagem no Amazonas

O Rio Negro perdeu 2,83 metros somente nos primeiros 18 dias de setembro e acelerou o ritmo de vazante em Manaus. Nesta sexta-feira (18/9), a régua do Porto de Manaus marcou 21,26 metros, enquanto no primeiro dia do mês o nível estava em 24,09 metros.

A velocidade da descida também chama atenção. Nos dias 15 e 16, o rio baixou 19 centímetros por dia. Nos dois dias seguintes, foram outros 18 centímetros diários. Em apenas 48 horas, entre quarta e sexta-feira, a redução chegou a 36 centímetros.

Apesar da rapidez da vazante, o cenário atual ainda é diferente daquele observado nas estiagens históricas de 2023 e 2024. Em 18 de setembro de 2023, o Negro estava em 19,36 metros e, na mesma data de 2024, marcava 15,53 metros. A cota atual está, portanto, 5,73 metros acima daquela registrada no mesmo período do ano da maior seca da série histórica.

O comportamento das águas, no entanto, mantém a atenção voltada para as próximas semanas, período em que a vazante ainda deve continuar.

Cenários

No Alerta de Vazante divulgado no início de setembro, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) apresentou cenários que colocam o nível do Rio Negro em Manaus entre 12,31 e 16,50 metros no pico da estiagem, dependendo do padrão de descida observado nos próximos meses. As projeções não constituem uma previsão única, mas sim cenários construídos a partir do comportamento registrado em diferentes anos da série histórica.

No cenário mais crítico analisado, o SGB considera a possibilidade de uma estiagem entre as mais severas já observadas caso o comportamento do rio reproduza padrões de descida registrados em anos anteriores.

O boletim mais recente do órgão, divulgado na quarta-feira (16), pondera, porém, que a maior parte dos rios monitorados na Amazônia continua dentro dos níveis esperados para esta época do ano.

Segundo o SGB, o quadro de 2026 é mais heterogêneo do que o observado em 2023 e 2024, quando a seca atingiu simultaneamente grande parte dos rios amazônicos. Neste ano, as condições variam entre as diferentes bacias.

O alerta permanece para o restante da estação seca. Caso as chuvas fiquem abaixo do esperado entre setembro e novembro, a vazante poderá se prolongar nas calhas dos rios Amazonas, Solimões, Negro e Tapajós.

Seca avança

Outros indicadores também apontam para a necessidade de acompanhamento da estiagem.

O monitoramento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostra que a bacia do Rio Negro passou de condição de seca fraca, em julho, para seca moderada em agosto. Para setembro, a projeção é de intensificação para seca severa.

No Amazonas, dois municípios avançaram para a classificação de seca severa entre julho e agosto. O levantamento também identificou seis municípios amazonenses nos quais entre 60% e 80% das áreas agroprodutivas estavam potencialmente afetadas pelas condições de seca.

O reflexo sobre a agricultura familiar é ainda mais abrangente. Considerando o calendário de plantio de feijão e milho, o Cemaden identificou 31 municípios amazonenses com condições de seca em agosto, sendo 14 classificados com seca severa e 17 com seca moderada. Em agosto de 2025, eram nove municípios na categoria moderada.

Também há sinais de agravamento em áreas indígenas. Seis polos localizados no Amazonas passaram para condição de seca severa em agosto, distribuídos pelos distritos sanitários Yanomami e Alto Rio Negro. Outros quatro polos amazonenses permaneceram nessa classificação.

El Niño

O cenário ganha atenção adicional diante das condições climáticas previstas para os próximos meses.

Segundo o Cemaden, o Pacífico Equatorial já apresentava condições de El Niño no início de setembro. Os modelos indicam continuidade do fenômeno até 2027 e apontam possibilidade de um episódio muito forte, com maior aquecimento previsto entre novembro deste ano e janeiro do próximo ano.

Para o trimestre de setembro a novembro, a previsão climática indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em grande parte do país, incluindo a Região Norte, enquanto as temperaturas tendem a permanecer acima da média. As projeções de curto prazo também apontam possibilidade de precipitações abaixo da média no Norte até o fim de setembro.

O conjunto de indicadores coloca as próximas semanas como decisivas para definir a intensidade da estiagem de 2026 no Amazonas. Enquanto os níveis de grande parte dos rios ainda permanecem dentro do comportamento esperado para a época, a aceleração da vazante do Negro, o avanço dos indicadores de seca e a perspectiva de menor volume de chuvas mantêm o Estado sob atenção.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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