Macas retidas travam Samu e entram na mira da Defensoria
Levantamento aponta 1.623 retenções em um ano; demora para liberar equipamentos atrasa ambulâncias e pode comprometer novos atendimentos em Manaus
Uma maca presa dentro de um hospital pode significar uma ambulância fora das ruas. E, em Manaus, esse problema se repetiu 1.623 vezes entre julho de 2025 e junho deste ano.
O volume de ocorrências levou a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) a instaurar um Procedimento Coletivo para apurar a retenção de macas e outros equipamentos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em unidades de saúde da capital.
O impacto vai além da logística. Enquanto a maca não é liberada, a ambulância permanece parada e deixa de estar disponível para outra ocorrência de urgência ou emergência.
Segundo relatório produzido pela Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) a pedido da Defensoria, macas, Red Block e colares cervicais permanecem retidos, em média, por 1 hora e 42 minutos.
Concentração crítica
O problema está fortemente concentrado em três hospitais.
Do total de retenções registradas no período, 93,5% ocorreram no Pronto-Socorro 28 de Agosto, no João Lúcio e no Platão Araújo.
O 28 de Agosto respondeu sozinho por 41,8% dos casos. O João Lúcio concentrou 39,1% e o Platão Araújo, 12,6%.
Também houve registros em outras unidades da rede pública e até em hospital privado.
Para o coordenador do Núcleo de Defesa da Saúde, defensor público Arlindo Gonçalves, a demora compromete diretamente a capacidade de resposta do Samu.
“A ambulância é acionada para atender uma ocorrência de urgência ou emergência, faz o resgate e leva o paciente ao hospital. No entanto, ela precisa aguardar a liberação da maca para voltar a ficar disponível”, afirmou.
Risco ao atendimento
Na prática, cada equipamento retido reduz a capacidade operacional do serviço.
Isso significa menos ambulâncias disponíveis em um sistema que depende de rapidez para atender casos graves.
A Defensoria também quer saber se a retenção já provocou agravamento do estado de saúde de pacientes ou indisponibilidade de viaturas em momentos críticos.
Outro ponto chama atenção: em 1.295 registros, não há informação sobre o tempo total de retenção dos equipamentos.
Gestores alertados
A Defensoria ressalta que a retenção de macas é proibida pela Lei Estadual nº 6.495/2023 e pode gerar responsabilização dos gestores das unidades.
Segundo Arlindo Gonçalves, a falta de planejamento para evitar o problema também pode, em tese, produzir outras consequências jurídicas.
A recomendação à Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) é para que, até o início de setembro, as unidades tenham quantidade suficiente de equipamentos próprios, evitando a dependência das macas e materiais pertencentes às ambulâncias.
Medidas cobradas
A SES-AM também deverá apresentar um plano para reduzir novas retenções, enfrentar a superlotação, ampliar a rede de urgência e emergência e capacitar gestores.
A Defensoria pediu ainda estudo sobre a necessidade de expansão dos serviços de média complexidade e da própria rede de urgência.
À Semsa, foram solicitadas informações detalhadas sobre os impactos da retenção no atendimento à população e sobre as medidas adotadas em conjunto com o Estado.
A investigação seguirá com novas inspeções.
O dado central, porém, já revela a dimensão do problema: quando uma unidade segura uma maca além do necessário, não retém apenas um equipamento. Pode estar retirando uma ambulância inteira de circulação justamente quando alguém precisa dela.


