Entre páginas e gerações, o Amazonas celebra o livro como resistência e identidade
No Dia do Livro, trajetórias como as de Guaracy e Márcio Tupinambá se encontram com a história de livrarias e autores que ajudaram a formar o pensamento amazônico
Por Dora Tupinambá (*)
Celebrar o Dia Mundial do Livro na Amazônia é reconhecer que, por aqui, a leitura nunca foi apenas hábito — foi conquista. Em um território historicamente distante dos grandes centros editoriais, o acesso ao livro precisou ser construído com esforço, persistência e, sobretudo, com pessoas que acreditaram que ele precisava circular.
É nesse contexto que histórias individuais se transformam em patrimônio coletivo.
Desde a década de 1970, nomes como José Guaracy Siqueira Tupinambá ajudaram a estruturar o acesso ao livro em Manaus. Em um período marcado por limitações logísticas e pouca oferta, sua atuação no comércio e distribuição foi fundamental para aproximar leitores de obras que, muitas vezes, demoravam a chegar à região.
Mais do que vender livros, Guaracy contribuiu para formar leitores — e isso, na Amazônia, tem peso histórico.
Legado que se amplia
Essa trajetória ganha continuidade com seu filho, Márcio Teixeira Tupinambá, que leva o trabalho iniciado no Amazonas para o cenário nacional.
Com atuação como presidente e dirigente da Associação Brasileira de Difusão do Livro, Márcio se consolidou como liderança no setor livreiro, participando diretamente das discussões sobre distribuição, políticas públicas e fortalecimento da cadeia do livro no Brasil.
Sua presença nesses espaços amplia a voz da Amazônia em um setor que, por décadas, esteve concentrado em outras regiões do país.
Tempos de encontro
Mas a história do livro no Amazonas não se constrói apenas nos bastidores da distribuição. Ela também nasce nos espaços onde ideias circulam.
Nas décadas de 1970 e 1980, a Livraria Maíra foi um desses territórios. Criada por Dori Carvalho, tornou-se um ponto de encontro de intelectuais, artistas e leitores no Centro de Manaus.
Mais do que uma livraria, era um espaço de convivência cultural. Um lugar onde o livro era também diálogo, debate e construção de pensamento.
A Maíra não resistiu ao tempo, mas sua memória permanece como referência de uma época em que o livro reunia pessoas.
Autores que projetam a Amazônia
A força dessa cadeia também se revela na produção literária.
Autores como Milton Hatoum, Márcio Souza e Renan Freitas Pinto ajudaram a transformar a Amazônia em narrativa, pensamento e identidade.
Suas obras projetaram a região para o Brasil e o mundo, mostrando que a Amazônia não é apenas cenário — é voz.
Valer se reinventa
Se a Maíra representa a memória, a Livraria Valer simboliza a continuidade.
A livraria atravessou momentos difíceis, encolheu, mudou de formato — mas não desapareceu. Se reinventou.
Hoje, ressurge como um espaço que vai além do livro, integrando arte, cultura e economia criativa, mantendo viva a tradição de ser um ponto de encontro na cidade.
Uma cadeia que resiste
O que conecta essas histórias é uma mesma lógica: a persistência.
Na Amazônia, o livro não circula por facilidade. Ele circula porque há quem sustente essa cadeia — do autor ao leitor, passando por quem edita, distribui e mantém espaços culturais vivos.
Homenagem que se amplia
Neste Dia do Livro, homenagear Guaracy e Márcio Tupinambá é reconhecer uma trajetória que ajudou a manter o livro em movimento no Amazonas.
Mas é também lembrar que essa história não é isolada.
Ela faz parte de um conjunto maior de esforços — de livrarias que marcaram época, de autores que deram voz à região e de pessoas que, ao longo das décadas, construíram o caminho para que o livro chegasse até aqui.
Mais que leitura
Na Amazônia, cada livro que circula carrega mais do que conteúdo.
Carrega história.
Carrega resistência.
E carrega a certeza de que, mesmo diante das dificuldades, a leitura segue viva — porque há quem nunca deixou de acreditar nela.
(*) Jornalista amazônida e fundadora do Valor Amazônico


