Mulheres indígenas usam inteligência artificial para proteger saberes e gerar renda no Brasil
Iniciativa une saber ancestral, tecnologia e autonomia econômica e já mobiliza comunidades em 12 estados brasileiros
Mulheres indígenas de diferentes etnias estão liderando um movimento inovador que une tecnologia de ponta e tradição cultural para preservar saberes ancestrais e gerar renda para famílias de suas comunidades. A plataforma digital batizada de Círculos Indígenas, que integra a Inteligência Artificial Arandu, foi criada com o objetivo de fortalecer redes de apoio, valorizar tradições e ampliar oportunidades econômicas para povos originários.
A palavra Arandu, que dá nome à IA, significa “sabedoria” em tupi-guarani — um símbolo da proposta de usar a tecnologia não para substituir o conhecimento tradicional, mas para guardá-lo, representá-lo e disseminá-lo de forma digital e acessível.
A plataforma permite que as participantes produzam, editem e distribuam conteúdos em diferentes formatos — como textos, vídeos e áudios — além de organizar um acervo digital de conhecimentos tradicionais. O espaço também abriga um e-commerce, onde são comercializados produtos e criações desenvolvidos nas aldeias, inserindo a economia digital como ferramenta de autonomia para as famílias indígenas.
Ao integrar tecnologia e cultura de forma respeitosa, o projeto busca fortalecer a economia criativa indígena, abrindo caminhos para que produtos culturais, artesanais e digitais tenham maior visibilidade e impacto de mercado — e, assim, contribuam para geração de renda e sustentabilidade das comunidades envolvidas.
Construção coletiva e alcance nacional
A iniciativa foi construída de maneira coletiva ao longo de 2025, a partir de uma convocação da ONG Recode, que atua em projetos de inclusão digital e fortalecimento de redes de apoio. O trabalho se expandiu para incluir mulheres indígenas residentes no Distrito Federal e em 12 estados brasileiros, entre eles Acre, Amazonas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e Tocantins.
A meta do grupo é ambiciosa: alcançar 240 participantes até 2026, com novas turmas em formação. As inscrições para a terceira etapa já estão abertas, com previsão para ampliar ainda mais a participação feminina indígena no desenvolvimento de tecnologia própria.
Cultura, economia e inovação com olhar indígena
Especialistas e ativistas lembram que o uso de inteligência artificial por comunidades indígenas representa um passo importante tanto para a preservação de línguas e tradições quanto para a construção de autonomia digital e econômica. Estudos recentes sobre tecnologias emergentes destacam que, quando as soluções são lideradas pelas próprias comunidades, há maior chance de proteção da identidade cultural e de soberania sobre seus dados e narrativas — elementos essenciais para evitar a apropriação indevida ou a marginalização da voz indígena no ambiente digital.
A Arandu e a plataforma Círculos Indígenas ilustram essa tendência global de uso ético da tecnologia, com um diferencial: a tecnologia não se sobrepõe ao saber tradicional, mas o fortalece e amplia.
Impactos sociais e perspectivas futuras
Para as participantes, o projeto representa mais que uma inovação: é uma forma de tornar visível o conhecimento que muitas vezes foi invisibilizado pelos caminhos tradicionais de preservação cultural e, ao mesmo tempo, gerar oportunidades econômicas reais para suas famílias. A iniciativa pode inspirar outras frentes de tecnologia voltadas à inclusão cultural e econômica de povos originários, reforçando a importância de plataformas que respeitem a diversidade e a autonomia das comunidades.


