Secas nos rios e igarapés podem ser a causa de aproximação de indígenas isolados, diz sertanista

Sidney Possuelo diz que esse tipo de aproximação não significa que eles estejam interessados em fazer contato

As secas nos rios e igarapés nessa época do ano, quando ocorrem menos chuvas no sul da Amazônia pode ser a causa da aproximação de um grupo de indígenas isolados, de etnia e cultura ainda desconhecidas, à aldeia do povo Marubo no território Vale do Javari, ocorrida no último dia 1º de agosto.

De acordo com o sertanista Sydney Possuelo, em entrevista à agência Amazônia Real, desde 2018 há registros de que esses isolados intensificam a migração em busca de alimentos nas roças dos indígenas de recente contato, incluindo os Kanamari.

Ao lembrar que esses aparecimentos não são de agora, principalmente nesta época do ano, quando os rios estão baixos, pequenos grupos saem caminhando pelas praias procurando ovo de tracajá [quelônio].

Segundo Possuelo, eles fazem acampamentos no percurso descendo o rio, como foi registrada na manhã do dia 1º de agosto, na margem do médio rio Ituí em frente à aldeia São Joaquim, do povo Marubo.

Indigenista, ativista social e etnógrafo, Sydney Possuelo é considerado a maior autoridade com relação aos povos indígenas isolados do Brasil

Outra observação do sertanista é de que esse tipo de aproximação não significa necessariamente que eles estejam interessados em fazer contato. Os avisos sonoros enviados por eles e escutados pelas mulheres Marubo seriam apenas uma forma de comunicação para informar que estão por perto, explicou.

Situada a quatro dia de viagem de quatro dias de viagem de barco até a cidade de Atalaia do Norte, no oeste do Amazonas, subindo pelo rio Itacoaí, a Aldeia São Joaquim pode ser alcançada em uma hora e meia de helicóptero.

Mas, na oportunidade, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Ministério da Saúde, que é responsável pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), não tinham meios de enviar uma equipe em aeronave ao território.

Um helicóptero foi contratado pela Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) apenas no dia 3, em Tabatinga, pelo Distrito Sanitário Indígena (Dsei) Alto Solimões, levando para a terra indígena o novo coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, indigenista Gutemberg Castilho dos Santos, o intérprete Dashe Mayuruna e uma enfermeira da Sesai.

A equipe permanece investigando o avistamento, que inclui também a aldeia São Joaquim, dos Marubo.

O contato dos Xinane em 2014 quando receberam bananas de Fernando Ashaninka (Foto: Funai/2014)

A Aldeia São Joaquim está localizada dentro da Terra Indígena Vale do Javari, região que foi defendida pelo indigenista Bruno Pereira e motivo das ameaças que ele recebia de pescadores, madeireiros e garimpeiros.

Os dois foram assassinados no dia 5 de junho em uma região da comunidade ribeirinha de São Gabriel, que fica a pouco menos de duas horas de barco da cidade de Atalaia do Norte, portanto, fora dos limites do território indígena.

A Funai e a Sesai informaram ter instalado um “Plano de Contingência para Situações de Contato de modo a responder de forma adequada e oportuna às situações de contato, devendo abranger o conjunto de atividades e procedimentos para estabelecer medidas de prevenção ou mitigação dos efeitos negativos desse tipo de evento”.

Uma das maiores preocupações com a aproximação de grupos isolados é por conta dos riscos de contraírem doenças às quais seus corpos não possuem imunidade.

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